As restrições alimentares vêm mudando a relação dos consumidores com a comida e também influenciando o mercado. Produtos sem lactose e sem glúten, que durante muito tempo ocupavam espaços mais específicos nas prateleiras, hoje aparecem em diferentes categorias e são procurados por pessoas com diagnósticos, sensibilidades, recomendações médicas ou simplesmente por consumidores que desejam fazer mudanças na própria alimentação.
Entre as situações mais conhecidas está a intolerância à lactose, condição relacionada à dificuldade do organismo em digerir o açúcar presente no leite. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, quando há produção insuficiente da enzima lactase, a lactose não é adequadamente digerida e pode provocar sintomas como gases, distensão abdominal, dor, náusea, vômitos e diarreia. Os sintomas podem aparecer entre 30 minutos e duas horas depois do consumo de leite ou derivados.
A nutricionista Alessandra Luglio, defensora da alimentação baseada em plantas e diretora do Departamento de Saúde e Nutrição da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), explica que a deficiência da enzima interfere diretamente nesse processo.
“Sem a lactase em quantidade suficiente, a lactose não é digerida adequadamente, fermentando no intestino e causando os desconfortos característicos da intolerância”, explica Alessandra.
No caso do glúten, a situação é diferente e exige cuidado com a terminologia. A doença celíaca é uma condição autoimune desencadeada pela ingestão de glúten em pessoas geneticamente predispostas. Existem também pessoas que apresentam sensibilidade ao glúten ou que, por diferentes motivos, optam por retirar ou reduzir alimentos que contêm esse componente. Por isso, a simples retirada do glúten da alimentação não significa necessariamente que uma pessoa seja celíaca.
A necessidade de atenção também se reflete na hora das compras. A Anvisa estabelece regras para a declaração de alergênicos e outras informações nos rótulos, permitindo que consumidores identifiquem ingredientes e componentes que precisam ser evitados. Para pessoas com restrições alimentares, a leitura da embalagem deixa de ser apenas uma etapa da compra e passa a fazer parte da rotina de cuidados com a alimentação.
“A informação é fundamental para que o consumidor consiga fazer escolhas adequadas às suas necessidades. Mais do que encontrar um produto sem determinado ingrediente, é importante entender a composição, a qualidade nutricional e se aquele alimento realmente atende ao que a pessoa precisa”, afirma Alessandra.
A mudança de comportamento também vem acompanhada pela ampliação da oferta. O mercado passou a apresentar uma variedade maior de produtos desenvolvidos para atender diferentes necessidades alimentares, desde bebidas e sobremesas até pães, massas, queijos e outros alimentos tradicionalmente associados ao leite ou ao trigo.
Esse movimento é acompanhado pela empreendedora Priscila Cardoso, que criou a VegSim depois de transformar a própria alimentação. O negócio reúne mais de 3 mil produtos e atende consumidores com diferentes perfis e necessidades.
“Quando uma pessoa precisa retirar algum ingrediente da alimentação, a primeira preocupação costuma ser entender o que ela poderá continuar consumindo. Hoje existe uma variedade muito maior de produtos e isso ajuda o consumidor a fazer mudanças sem sentir que precisa abrir mão de sabor, praticidade e variedade”, afirma Priscila.
Para além das necessidades médicas, a expansão dessa categoria também revela uma mudança na relação dos consumidores com a alimentação. Restrições que antes podiam significar uma lista limitada de produtos passaram a encontrar um mercado mais diversificado, com opções para diferentes ocasiões e estilos de vida.
A tendência mostra que as restrições alimentares não dizem respeito apenas ao que o consumidor deixa de comer, mas também às novas possibilidades que surgem quando a indústria, o varejo e os próprios consumidores passam a buscar alternativas.